O santo e o profano em convivência harmoniosa. Na “Festa do Divino”, em Paraty, é assim. Na área ao lado da Igreja Matriz, por exemplo, são montadas barracas com comidas típicas, bebidas e petiscos é lá que acontecem os eventos da programação “profana”. Há shows musicais, brincadeiras, torneios esportivos, entre outros, organizados pela Secretaria de Turismo e Cultura.

No sábado é o “almoço público”, que começa a ser preparado cerca de três dias antes, pois envolve uma grande quantidade de comida, normalmente obtida por meio de doações da comunidade. Há, na cidade, uma “equipe” de senhoras que, além de devotas do Divino, são excelentes cozinheiras, e que se encarregam, todos os anos, da preparação do almoço. O prato de maior sucesso é a tradicional “farofa de feijão”, cuja receita remonta aos primórdios da cidade, quando os primeiros tropeiros subiam pela antiga trilha aberta pelos índios Guianá, posteriormente chamada “Caminho do Ouro”, em busca das riquezas das Minas Gerais. Por sua consistência e valor nutritivo, a “farofa de feijão” constituía uma refeição excelente, fácil de transportar e pouco perecível. Alguns acreditam que dela tenha se originado o “feijão tropeiro”, prato típico da cozinha mineira.

A comemoração é móvel, acontecendo sempre 50 dias após a Páscoa. A festa em comemoração à terceira pessoa da Santíssima Trindade acontece em Paraty há pelo menos 300 anos. As comemorações do Divino Espírito Santo teriam chegado com os primeiros navegadores portugueses em uma nau, atravessando o oceano para o Brasil, onde a festa aconteceu a bordo, tendo um jovem grumete da tripulação sido coroado - conforme reza a tradição - imperador do Divino. A “Festa do Divino”, apesar do progresso e dos anos, tem mantido suas primitivas comemorações sem desfiguração do aspecto ingênuo, religioso e popular a ela assimilado durante séculos. Ainda existe a participação da folia nas procissões das bandeiras e no bando precatório. Durante a novena, a tradicional procissão das bandeiras vermelhas, tendo ao centro uma pomba branca - símbolo do Divino Espírito Santo -, percorre as ruas da cidade acompanhada da folia e banda de música.

Na véspera da festa, sábado, persiste a distribuição de carne aos pobres e o “almoço público”, com farta distribuição de comida ao povo. À noite, durante a celebração da missa, é coroado o menino imperador. As danças folclóricas, como a congada, o cateretê e a ciranda, divertem o povo nas noites de sábado e domingo. O imperador preside as cerimônias de sua festa distribuindo lembranças e medalhas, soltando da cadeia um preso comum, como indulgência imperial, e recebe as homenagens das autoridades locais e as reverências de praxe. Na parte religiosa, preside as procissões e tem assento ao lado direito do altar, em trono ricamente ornado, ostentando as insígnias imperiais: coroa e cetro de prata.
Fonte: Jornal O Dia
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